01 maio 2009

Bye-bye, Bahia


Custou deixar a Bahia. Cumprimos o mês que lhe tínhamos destinado, mas a sensação é de que foi curto. À medida que nos aproximamos da fronteira, parece que inventamos caminhos novos para demorar a saída. Inclusivamente, parece que procuramos algo que nos desiluda para não sair com tanta pena. Não foi bem o caso, mas a zona de Conde não foi suficientemente convincente para nos deter por lá. Bem sei que a época é baixa mas, assim mesmo, creio chegar à conclusão de que o que é bom já está relativamente bem explorado, no litoral brasileiro. Em lugares menos apelativos, a infra-estrutura que falta na época baixa não parece ser muito melhor na época alta. Só deve ser mais cara, deve ter mais gente e nem por isso deve oferecer mais.

A natureza é ilimitadamente profícua, o criador deixou em todo o lado um inegável legado. Mas nem sempre isso basta, especialmente naqueles casos em que a mão da criatura já lá chegou, sem preocupações que não sejam as trivialidades de um merecido tecto ou, em gerações mais novas ou com um pouco mais de renda, de uma bagageira preenchida com colunas (que é como quem diz, umas colunas com um carro à volta) para ouvir e obrigar a ouvir os axés, bregas e funks mais insuportáveis que alguém se lembrou de gravar. Não esquecendo, obviamente, os casos em que a criatura tem nome de cadeia hoteleira e cria os paraísos artificiais a que chama resorts, vedando praias e privatizando o mar.

E assim abandonámos o território baiano. Trazemos já muitas saudades, duas mãos cheias de gente boa, e a certeza de que a Bahia não é apenas um Estado, mas um estado de graça.


27 abril 2009

Salvador

De Morro de São Paulo, cortámos caminho por ferry-boat, para poupar 150 km por estrada até Salvador. A paisagem que nos acompanha e entra por Itaparica adentro é muito bonita, rodeando uma estrada quase sem movimento. Desta ilha que olha de frente para a capital, do outro lado da Baía de Todos os Santos, ficámos com uma ideia de que tem um enorme potencial, especialmente do lado oposto, em que a ponte do Funil a liga ao continente, sobre o Canal de Itaparica. Faz lembrar uma barragem, com todas as possibilidades que oferece para desportos náuticos. A proximidade a Salvador é uma mais-valia que, pelos vistos, ainda não soube ser explorada.

Na cidade, domingo à tarde, as praias e esplanadas da Barra estavam compostas. Conseguimos acertar numa pousada gerida por um português, mas onde ficámos apenas uma noite por motivos estratégicos, para terminar um trabalho que um patrocinador aguardava na manhã seguinte.

Como não podia deixar de ser, fizemos uma breve visita ao Pelourinho, mas o ambiente não era dos mais agradáveis. A principal razão que lá nos tinha levado - ir até ao atelier do Menelau - acabou por sair gorada, visto que, ao domingo, a loja fecha mais cedo. Ficámos com pena de não o ver nem de poder conhecer as novas obras do Picasso brasileiro. Acabámos a noite num Shopping - enfim, para um banho de normalidade, que esta coisa de ser muito alternativo também cansa!

26 abril 2009

Morro de São Paulo

A chuva literalmente espantou-nos de Itacaré. Até ao último dia, o cinza do céu não aliviou e ainda nos proporcionou um pequeno raid mais radical, depois de passarmos o Rio das Contas, de balsa. Na outra margem, os 12 km de estrada de chão até à nova rodovia, aliados à chuva dos últimos dias, prepararam um piso digno de todo-o-terreno. Foi essa a única razão pela qual, lamentavelmente, não conseguimos ir conhecer Barra Grande, uma visita que estava prometida ao pessoal que já cá esteve e que também não conseguiu lá ir. Vai ter que ficar para a próxima.


A tal rodovia nova, pronta há algum tempo, aguarda verba renovada para que seja concluída uma pequena ponte que a ligue a Itacaré, assim evitando, a quem viaja para Norte, o desvio de mais de 100 km por Ilhéus ou as contingências do piso em que nós nos aventurámos. Assim sendo, apanhámos o troço inicial da estrada nova que praticamente ninguém usa, por não ser mais do que um beco sem saída. Deve ter ido pelo Rio das Contas abaixo a verba original que estava destinada à ponte...


O novo destino foi Morro de São Paulo. O tempo parece querer mudar e, obviamente, isso contribui muito para a primeira impressão que se traz das coisas. De qualquer das formas, a ilha tem boa onda, praias lindas, gente acolhedora. Uma grande e simpática comunidade de italianos já vai aqui deixando descendência e fundando pousadas e restaurantes. Também há alguns portugueses. Quanto a isso, os nativos são claros: "desde que traga renda e emprego, não interessa de onde vem". Por aqui, assim como ao longo dos quase 4 mil km de costa que já fizemos, na praia não se vê grande miséria. O turismo desenvolve o comércio, os serviços. Muitas pessoas também vivem de expedientes, como carregadores de malas, estacionadores, guias nativos, vendedores de tudo. Trabalhos obviamente precários, sustento sabe-se lá de quantos. Desconheço os números do desemprego no Brasil, mas à luz das tendências mundiais, é estranho ver, por vezes, um restaurante com mais empregados do que clientes.


O ponto alto em Morro foi a visita às piscinas naturais na Quarta Praia, onde centenas de peixes listrados nos rodeiam e não nos estranham, habituados como estão a que lhes dêem de comer. Quando perguntei acerca da identidade da espécie, o moço que aluga máscaras para mergulho e vende ração para atrair os bichos explicou-me com um grande sorriso de sabedoria: "Deus não disse o nome desse peixe, não. Aí, o homem botou "sargento"."

23 abril 2009

Novelas

O nosso mês na Bahia ainda nos guardava outras praias, por isso tratámos de seguir para Itacaré. Fica depois de Ilhéus, cidade onde Jorge Amado viveu e se inspirou para a Gabriela e onde ainda existem algumas das casas das filmagens, como o bar do Seu Nacib e o Bataclan.

Jorge Amado nasceu precisamente numa cidade que fica a caminho de Ilhéus, chamada Itabuna. E tal como pariu a genialidade deste escritor, esta cidade é agora fértil nas circunstâncias que a tornam o maior foco de dengue na Bahia. Quem por lá passa percebe porquê. O lixo é muito, acumulado pelas estradas, junto às casas, nas poças que a chuva teima em não deixar vazar. Por ali vivem pessoas, as mesmas que contribuem para esse lixo, habituadas a conviver, descalças, com tudo isso, a quem não ensinaram a viver de outra maneira, que nunca viram nada melhor, que não sabem exigir às entidades melhores condições sanitárias. Nem de habitação. Nem de urbanismo. Nem de educação. Mais difícil do que tirar as pessoas da pobreza é tirar a pobreza das pessoas. Isso vê-se muito, no dia a dia. Mas não é só no Brasil.

Do muito que nos falaram de Itacaré, não deu para comprovar grande coisa. Entre outras razões, a que me toca mais foi o facto de os patrocinadores, mais uma vez, não me terem dado tréguas. A segunda foi o tempo. O Norte e o Nordeste têm estado a ser afectados por grandes "pancadas" de chuva, em alguns lugares as mais fortes dos últimos 100 anos. E a ausência secular fez-se agora substituir por chuvas e nuvens diárias. A sorte é que a temperatura é amena. Por isso, lamento dizer que Itacaré deve ser muito bonito... com bom tempo.

As praias, pela natureza das ondas, são fundamentalmente frequentadas por surfistas. Pessoal muito jovem, que é também quem dá vida aos restaurantes e bares da cidade. O feriado de Tiradentes ajudou a preencher mais os cenários, para contrariar a baixa temporada.

Itacarezinho, praia recta com vários quilómetros, é o refúgio de alguns resorts mais exclusivos. Talvez por esse motivo, só para poder chegar à praia de carro, deixam-se 10 reais nas mãos do guarda junto à estrada; para visitar as cachoeiras, são mais 20. Quanto a mim, não será o melhor modo de fazer negócio porque quem explora as concessões dos locais já tem alguém a montante a filtrar os acessos. A não ser que sejam os mesmos a cobrar nos dois lugares...

Mas não há dúvida que a Natureza também aqui não foi madrasta ao deixar um generoso pedaço de Mata Atlântica. Há casas que passam despercebidas, no meio de tanta vegetação. Foi chão que já viveu o auge do cacau, na década de 1920, precisamente quando Maria Machadão recebia os coronéis no seu cabaré.

18 abril 2009

Os amigos da onça


Outra circunstância fantástica que teve esta visita a Trancoso chama-se Pindorama. A segunda noite na cidade levou-nos a fazer o roteiro das tais lojas do Quadrado. Uma delas expunha peças genuínas de artesanato indígena, fruto de garimpo de arte pelas estradas mais inóspitas do Brasil. Encantei-me por uma onça de madeira do Alto Xingu, de uma reserva índia perdida no Mato Grosso, esculpida à mão e pintada com jenipapo. Passámos a ir visitá-la todas as noites, pelo que criámos amizade com pessoas muito interessantes e queridas, como o Otávio, dono da loja; o Hélio, outro elemento da equipa Pindorama; o Seu João, pescador nas madrugadas e roceiro nas tardes, nativo dono da casa onde está a loja e – mais importante - das mesas em frente à loja, onde joga dominó com os amigos, conversa com quem passa e onde o Henrique teve o privilégio de festejar os anos; a Dona Glória, mulher do Seu João e parteira de Trancoso, por cujas mãos já passaram mais de 200 "filhos de pegação" e que - por falar em natalidade - o destino me apresentou no dia dos anos do meu filho, o mesmo dia em que também ela tinha sido mãe do Careca; a Nely, exemplo bem acabado de uma baiana linda, filha de Seu João e Dona Glória, irmã de Careca e mãe de Serena, uma das grandes amigas que o Henrique conquistou no Quadrado.
Dificilmente poderíamos ter tido mais sorte com os amigos que a onça nos apresentou...

Pousada Encantada


A Pousada Encantada, que encontrámos por acaso a 150 metros do Quadrado, foi mais uma excelente surpresa que esta viagem nos reservou. Praticamente por nossa conta, confortável, com um carisma mineiro que é a cara dos donos, a Kelly e o Sérgio, e com um dos melhores “cafés-da-manhã” que temos comido - e olhem que andamos peritos nisto! No penúltimo dia, todos os hóspedes que lá se juntaram, como que escolhidos a dedo, organizaram um churrasco e lá passámos horas divertidas, a beber cerveja, a comer carne e peixe na brasa e a trocar ideias.

Trancoso, Bahia

Era um facto que nós já sabíamos, à partida: Trancoso seria um dos sítios preferidos desta viagem. E confirmou-se. Apesar de já não ser novidade, foi onde ficámos mais tempo, sem a mínima vontade de sair. Parece-me que me custaria menos sair de lá para voltar para Portugal do que para continuar a viagem. Pela simples razão de a primeira opção implicar a obrigação de um voo que não espera e a segunda só depender da nossa iniciativa. E, pelos vistos, o Henrique ficou a partilhar da nossa opinião.
Viemos por uma semana, ficámos 17 dias. Começa a ser tradição adiar o regresso de Trancoso…



Trancoso é um caso de paixão fácil. O encantador Quadrado, um rectangular pedaço de chão relvado, é ladeado por casas de bonecas e rematado, ao fundo e à beira do mirante, por uma igreja jesuíta de 3 séculos. Quem lá mora são nativos ciosos e vaidosos da sua herança. Ou pousadas, restaurantes e lojas de requinte que, entretanto, lá se instalaram. Abaixo da falésia, as praias não são modestas na beleza natural. Cada vez que olho para esta paisagem é-me mais fácil imaginar o que Pedro Álvares Cabral e toda a tripulação terá pensado, quando viu isto pela primeira vez…

12 abril 2009

Feliz Páscoa

Jesus No Xadrez

No tempo em que as estradas
Eram poucas no sertão
Tangerinos e boiadas
Cruzavam a região
Entre volante e cangaço
Quando a lei
Era a do braço
Do jagunço pau-mandado
Do coroné invasô
Dava-se no interiô
Esse caso inusitado

Quando o Palmeira das Antas
Pertencia ao capitão
Justino Bento da Cruz
Nunca faltô diversão
Vaquejada, canturia
Procissão e romaria
sexta-feira da paxão

Na quinta-feira maió
Dona Maria das Dores
No salão paroquial
Reuniu os moradores
Depois de uma preleção
Ao lado do capitão
Escalava a seleção
De atrizes e atores

Todo ano era um Jesus
Um Caifaz e um Pilatos
Só não mudavam a cruz
O verdugo e os maltratos

O Cristo daquele ano
Foi o Quincas Beija-flor
Caifaz foi Cipriano
Pilatos foi Nicanô

Duas cordas paralelas
Separavam a multidão
Pra que pudesse entre elas
Caminhar a procissão

Quincas conduzindo a cruz
Foi num foi adivirtia
O Cinturião perverso
Que com força lhe batia

Era pra bater maneiro
Bastião num intidia
Divido um grande pifão
Que tomou naquele dia
D'um vinho que o capelão
Guardava na sacristia

Cristo dizia:
- Ô rapais, vê se bate divagar
Já to todo incalombado
Assim num vô agüentar
Tá cá gota pra duer
Ou tu pára de bater
Ou a gente vai brigar
Jogo já essa cruis fora
Tô ficando aperriado
Vô morrê antes da hora
De ficar crucificado

O pior é que o malvado
Fingia que num ouvia
E além de bater com força
Ainda se divirtia
Espiava pra Jesus
Fazia pôco e dizia:
- Que Cristo frôxo é você?!
Que chora na procissão
Jesus, pelo que se sabe
Num era mole assim não
Eu to batendo com pena
Tu vai vê o que é bom
Na subida da ladeira
Da venda de Fenelom
O côro vai ser dobrado
Até chegar no mercado
A cuíca muda o tom

Naquele momento ouviu-se
Um grito na multidão
Era Quincas
Que com raiva
Sacudiu a cruz no chão
E partiu feito um maluco
Pra cima de Bastião
Se travaram no tabefe
Pontapé e cabeçada
Madalena levou queda
Pilatos levou pancada
Deram um cacete em Caifaz
Que até hoje num faz
Nem sente gosto de nada

Dismancharam a procissão
O cacete foi pesado
São Tumé levou um tranco
Que ficou desacordado
Acertaram um cocorote
Na careca de Timote
Que inté hoje é aluado

Inté mesmo São José
Que num é de confusão
Na ânsia de defender
Seu filho de criação
Aproveitou a garapa
Pra dar um monte de tapa
Na cara do bom ladrão

A briga só terminou
Quando o dotô delegado
Interviu e separô
Cada santo pro seu lado

Desde que o mundo se fez
Foi essa a primêra vez
Que Jesus foi pro xadrez
Mas num foi crucificado

Cordel Do Fogo Encantado
Composição: Chico Pedrosa

08 abril 2009

Prado

"Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz!

Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças. E ao sol-posto umas seis léguas da terra, lançamos ancoras, em dezenove braças -- ancoragem limpa. Ali ficamo-nos toda aquela noite. E quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos em direitura à terra, indo os navios pequenos diante -- por dezessete, dezesseis, quinze, catorze, doze, nove braças -- até meia légua da terra, onde todos lançamos ancoras, em frente da boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas, pouco mais ou menos.

E dali avistamos homens que andavam pela praia, uns sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos que chegaram primeiro.

Então lançamos fora os batéis e esquifes. E logo vieram todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor. E ali falaram. E o Capitão mandou em terra a Nicolau Coelho para ver aquele rio."

É assim que a Carta descreve o primeiro desembarque dos portugueses no Brasil. Ao que parece, não sendo apenas o bairrismo a falar e a puxar para a sua praia os eventos históricos, foi em Prado que se deu esse encontro. Prado é uma cidade pequena, com praias extensas e bonitas. Ali começam as falésias que se prolongam para Norte. Um pouco a Sul, Alcobaça e Caravelas levam até Abrolhos, um dos arquipélagos de eleição para mergulho. É também a costa das Baleias (Jubarte).

Com o fim do Carnaval, todas estas cidades litorais entram em época baixa e voltam ao comum dos dias. No entanto, há sempre uns recantos que se mantêm com os poucos turistas e passantes. Um desses casos é a pousada Lagoa Pequena, onde ficámos dois dias. Um casal de São Paulo que se reformou e aqui se instalou para receber, conhecer e conversar com gente nova, todos os dias.
Perspectivas que vamos encontrando um pouco por todo o lado, de gente que decide trocar as voltas à vida. Para aproveitar paisagens como esta, por exemplo.

31 março 2009

Espírito Santo


No Sábado, cumprido que estava o dever maior de entrega do trabalho, fizemo-nos à estrada em direcção ao Espírito Santo. A ideia era atravessar esse Estado o mais depressa possível, para chegar à Bahia. Do pouco que eu conhecia do Espírito Santo, não tinha formado grande ideia do litoral. E, efectivamente, esse dado confirmou-se. Há praias bonitas mas sem infra-estrutura apetecível. Não é que andemos sempre à procura de algo como Búzios, cheio de lojas fashion e de gente de férias, sarada e bronzeada. Mas convenhamos que não cativa muito ficar em cidades desertas, feias, ainda por cima brindadas com chuva.


Do que não estavamos à espera era da serra que se ergue ao lado da BR101. Com tão impressionante relevo, com os olhos cheios de verde, foi um ver-se-te-avias a disparar fotografias em todas as direcções. Não exagero se vos disser que lembra a Suíça. As diferenças rondarão o facto de os montes e vales não estarem cobertos de neve, mas pontilhados de bananeiras e pés de café. Lindo.

Outra agradável surpresa foi Victória, por onde só tinha passado à noite, a dormir num ônibus-leito. Tinha ideia de uma cidade feia, muito perigosa (goza a fama de mais perigosa do Brasil). Quanto à violência, não sei. Mas pela parte onde passámos, vimos uma capital bem exposta, cheia de pontes, com uma orla marítima semelhante ao calçadão de Copacabana, também abraçada pelos rochedos da serra. Quanto às estradas, o Espírito Santo está muito bem servido, com vias rápidas privadas excelentes e com a BR101 muito bem tratada.


Em duas etapas atravessámos o Estado e, não fosse a visita prometida ao Henrique ao Projecto Tamar de Itaúnas, para ver eclodir os ovos de tartaruga na praia, teríamos certamente dormido uma noite mais cedo na Bahia. E por falar em tartarugas, o Guia 4 rodas (a bíblia dos viajantes no Brasil) desta vez falhou. A indicação de que o centro do Projecto Tamar em Itaúnas está activo e que a desova decorre entre Janeiro e Março está errada. O centro de Itaúnas foi desactivado no ano passado e transferido para Guriri, mais a Sul; o ponto alto da abertura dos ovos de tartarugas é entre Dezembro e Fevereiro. Assim sendo, lá recuámos 40 km para visitar o parque de Guriri, e a única tartaruga bebé que vimos já tinha 48 dias. Mas valeu a pena porque o Curumim adorou e ainda deu de comer às bichas! Só não mergulhou nos tanques porque não o deixaram!...

Recapitulando...

Depois de mais alguns quilómetros cumpridos, e de outras tantas ideias traduzidas, volto a dar-vos conta do que por aqui passámos.

A saída do Rio foi tão serena quanto a entrada - do Rio continuo a guardar apenas imagens positivas, embora contrariando as notícias dos noticiários sensacionalistas. Dos canais que aqui se dedicam a transmitir em directo os tiroteios, os acidentes, as perseguições, os sequestros e afins, o que mais curtimos foi a cena de um camião da Skol (= uma das boas cervejas brasileiras) que foi roubado por um qualquer maduro, em São Paulo, mas que teve o azar de se espetar num poste duma avenida bem movimentada da grande cidade. Tristemente, foi apanhado, cheio de sede.
(Só um aparte: não sei se em Portugal, um país que tem praticamente a mesma população que a cidade do Rio, a questão da (in)segurança não anda tão presente quanto aqui...)

Do Rio, a ponte levou-nos até Niterói. Lá, fomos directos ao MAC, mais uma obra incontornável da arquitectura brasileira. Criado por Niemeyer há pouco mais de uma década, é um edifício que continua a ser identificado por todos quantos passam por ele, diariamente, como o "disco voador". Aliás, nem vale a pena perguntar "onde fica o Museu de Arte Contemporânea?", porque ninguém sabe a que nos referimos.
Mas, na verdade, chamar-lhe cálice, flor, cogumelo ou navio (como o Henrique), ou referir-lhe a função, é o espaço deixado à interpretação. O facto é que o vetusto senhor desenhou um objecto cuja inclinação se encosta, do outro lado da Baía de Guanabara, à mesma do Pão de Açúcar; e o plantou num espelho de água que se prolonga nas águas salgadas, logo abaixo; e que o elevou dum pequeno promontório, como que germinado. "A oportunidade", enfim, "de fazer uma boa arquitectura", nas palavras do mestre.

"Como é fácil explicar este projeto! Lembro quando fui ver o local. O mar, as montanhas do Rio, uma paisagem magnífica que eu devia preservar. E subi com o edifício, adotando a forma circular que, a meu ver, o espaço requeria. O estudo estava pronto, e uma rampa levando os visitantes ao museu completou o meu projeto."


Foi também oportunidade de revermos outro velho amigo brasileiro: o Zé Caranguejo, mais uma das personagens incontornáveis do Verão de 1993, da Marina de Vilamoura. Foi assim que acabei por partilhar o dia dos meus anos com o Zé Paulo, filho mais novo do Zé, num churrasco organizado pelo pai. Foi divertido e em família, e o Zé fez questão de se despedir ao piano, nas suas interpretações inesquecíveis de Chico Buarque.

E por falar em anos: o Pedro decidiu improvisar-me um ramo de flores e, nessa noite, quando eu já dormia, saiu à rua, no meio da mata da pousada, para colher alguma coisa digna. Como tenho este mau feitio e me lembro de acordar a meio da noite, olho para o lado da cama, no chão e - que vejo eu? Uma coisa que, de imediato, se assemelhava a uma prancha de surf! Pensei: "Entrou algum surfista distraído no nosso quarto e está por aí a dormir!" Quando foquei bem o olhar é que vi que o Pedro não tinha sido nada modesto e tinha feito um arranjo com flores e com uma folha de bananeira de alguns 2 metros! A todos os outros que me tentaram ligar, apanhar no skype ou me mandaram mensagens, um beijo de obrigada!

A nova semana começou em Búzios, no meu novo escritório que vocês já conhecem. É um lugar óptimo, com excelentes alternativas de praia e de fait-divers (embora eu me tenha dedicado quase exclusivamente aos fait-divers porque, à praia, só fui um dia!).


Mas as praias são lindas, a comida é óptima, o ambiente é descontraído - quando se ignoram alguns (nem todos!) argentinos que, pura e simplesmente, invadiram o pedaço como os ingleses fizeram há uns anos no Algarve, com a arrogância balofa do neocolonizadorzinho.

Da pousada onde vivemos essa semana, quase como únicos hóspedes, deram-nos a chave da casa, porque a recepção fechava às 10. E os pequenos-almoços, que eu tanto adoro, estão a saber ir ao encontro dos meus desejos: esta vida de hotel é tão boa que ainda me habituo...

27 março 2009

Petiscos

São servidos?

camarão ao alho e óleo

mista de frutos do mar na chapa

25 março 2009

Patrocinadores

Malta, peço desculpa mas não tenho tido muito tempo livre para actualizar a escrita. Os patrocinadores exageraram, esta semana, e tenho estado a cumprir uma média de 11 horas/dia em frente ao computador. O que vale é que o escritório não é mau...

:-)
Em breve voltarei ao ritmo da semana passada!

21 março 2009

P´ra quê discutir com Madame?


Como o Corcovado e o Pão de Açúcar também fazem parte do Rio, lá fomos, cumprindo o programa mais esperado dos turistas. Foi pena o dia não ter estado mais limpo, se a ideia era usufruir das vistas...

E para usufruir das vistas, a ideia secreta era também saltar da Pedra da Gávea, de asa-delta. Malta, lamento desiludir-vos, mas não saltámos. Pela simples razão que já referi: o dia não estava nada de especial. Guardo, há anos, uma imagem espectacular do Rio visto desse salto, construída a partir de cenas vistas e imaginadas. É uma imagem estereotipada muito bonita, com banda sonora e tudo. Prefiro mantê-la assim e esperar por um dia claro.

E como a noite era a última no Rio, decidimos ir curtir um bom restaurante e um bom som. Ao que parece, a Lapa e o Centro antigo estão bastante mais seguros, agora, muito policiados e bem frequentados. Com essas garantias, lá levámos o Henrique para lugares onde as únicas crianças que se viam estavam precisamente do outro lado da noite, a vender chiclets, cigarros ou outra qualquer mercadoria que lhes coubesse nas mãos.

Fomos para a Rua do Lavradio, perependicular à Rua do Senado. Ao que me contaram, foi a primeira rua habitacional do Rio, com casas de cômodos, donde se expandiu a cidade. Hoje em dia, essas mesmas casas de finais do séc. XIX acomodam outros ritmos e são palco de shows diários de samba, chorinho, forró, etc.. A mais carismática das casas nocturnas dessa rua é, certamente, o Rio Scenarium - pavilhão cultural. Três pisos, dois palcos e centenas de mesas, um salão só para dançar forró às terças-feiras, dezenas de empregados bem parecidos e simpáticos, e muita história para contar em cada objecto exposto, do kitsch à Arte Nova. Os proprietários são também donos de um antiquário e recolhem peças da época, que alugam para filmagens. Daí o nome do espaço. As aulas de música a crianças desfavorecidas, teatro, cursos de recuperação de móveis antigos, etc. fazem também parte da responsabilidade cultural (e social) do local.
Na pista de dança, verdadeiros cariocas deliram ao som dos sambas e dançam com parceiros ocasionais, que lá encontram para esse mesmo fim. Também já se vê muito turista a tentar sambar. Mas o ambiente, de tão genuíno, ofusca essas importações baratas.
A juntar a isto tudo, a coincidência de estar a actuar nesse palco o autor e compositor Agenor de Oliveira, amigo do Paulinho Lêmos, que conhecemos no Café Inglês, em Silves. E eu com o número de telefone do senhor na carteira!... Lá fomos trocar umas palavras com ele, no fim do show, e mandar um abraço do Paulinho.

E para terminar em beleza, deixo-vos o samba com que começou a nossa noite, num outro bar, e que nos fez logo pensar na Maria:

P'ra quê discutir com Madame?

Madame diz que a raça não melhora
Que a vida piora
Por causa do samba
Madame diz que o samba tem pecado
Que o samba é coitado
Devia acabar
Madame diz que o samba tem cachaça
Mistura de raça, mistura de dor
Madame diz que o samba é democrata
É música barata
Sem nenhum valor

Vamos acabar com o samba
Madame não gosta que ninguém sambe
Vive dizendo que o samba é vexame
P'ra quê discutir com Madame?

No carnaval que vem também com o povo
Meu bloco de morro vai cantar ópera
E na avenida, entre mil apertos,
Vocês vão ver gente cantando concerto
Madame tem um parafuso a menos
Só fala veneno
Meu Deus, que horror!
O samba brasileiro, democrata
Brasileiro na batata é que tem valor.

(Haroldo Barbosa e Janet de Almeida, 1956)

Plágio das cartas do meu moinho



"Por favor, não façam barulho no ambiente!"

Esta é para os Goitacás e esta é para o Curumim, que já parece um índio ("Porque sou aventureiro / desde o meu primeiro passo / p'ro infinito!"). Andam lá fora, pela Mata Atlântica, a lutar pela vida e a dar alegria à gente. Minino, qui fotos bacana! Minina, qui prosa búnita!

Ao que os goitacás responderam:

"O Curumim, quando viu a imagem, perguntou, de olhos esbugalhados: "É um teatro?". E depois devorou o filme até ao fim, e quis ver os outros do sítio do picapau amarelo. Os outros Goitacás mandam-te um beijão e devolvem o filme! "

19 março 2009

Parabéns, Puto!

Antes de mais nada, três beijões de parabéns deste lado do charco, para o mano/tio/cunhado mais novo. Em tua honra, fizemos hoje o périplo (possível) da arquitectura do Rio - aquele que tu, com certeza, gostarias de fazer.

Começámos pela obra em que Niemeyer se estreou, sob a tutela de Corbusier: o Palácio Gustavo Capanema, o primeiro grande prédio modernista do mundo (1937-43). Lúcio Costa, Niemeyer e Affonso Reidy desenharam e executaram este edifício suspenso no exterior em colunas de 10 metros, mas que entram pelo prédio adentro e se prolongam até ao topo. Sede de serviços públicos, no centro do Rio, com azulejos de Cândido Portinari e jardins de Burle Marx.



A seguir, as ruas levaram-nos pela 7 de Setembro até à Luís de Camões, donde se entra para o Real Gabinete Portuguez de Leitura. Pelo menos 350 mil obras de literatura portuguesa ("mais velhas do que Cristo", segundo o Henrique), onde moram, entre outros, um exemplar da 1ª edição dos Lusíadas e outro dos sermões do Padre António Vieira. Aliás, está em especial destaque o IV centenário do nascimento do autor dos sermões aos peixes. A sala pública deste edifício manuelino tem 400 m2 e 23 m de altura, forrados de estantes e lombadas a toda a volta. Um vitral na sala principal garante a entrada de luz directa. Soberbo.


À volta, depois de muitos calores e caminhadas, acabámos no Aterro do Flamengo, no Museu de Arte Moderna, outra obra de Affonso Reidy, mais uma vez com paisagismo de Burle Marx. Desta vez, o edifício espalha-se na horizontal, suspenso em colunas em V, que desimpedem os ares e os olhares para a enseada da Glória. Do jardim, mais exótico e ecléctico do que o do Palácio, entre nenúfares, pedras, palmeiras e amendoeiras, entrevê-se o Pão de Açúcar e a Urca.



E assim se passou o dia do Pai - que hoje foi um Paizão, por carregar às cavalitas os 20 e poucos quilos de gente que, a cada 20 metros, dizia estar cansado...
E, se começámos a dar os parabéns ao aniversariante, terminamos a mandar um beijo aos pais! Aos nossos e a todos os que conhecemos que merecem esse epíteto!

Rua do Senado


A rua que viu Elza nascer é a do Senado, a mesma que Machado de Assis escolhera para a Missa do Galo. Vinícius ainda não tinha um ano, Niemeyer tinha 7.

Se a casa ainda existe, é difícil de saber. Mas foi compensador, num exercício que me fez recuar 100 anos, encontrar lojas dessa altura, como a Casa Valduga (desde 1875) ou casas de 1913, que ainda hoje preservam o aspecto que teria esta rua do centro do Rio, no auge da expansão urbana, comercial e imigrante. E imaginar todo o resto.

E o Rio de Janeiro continua lindo...

Confesso que foi a viagem mais calculada que fizemos, até aqui. O Rio impõe respeito, pela sua fama marginal. A Linha Vermelha, com as suas histórias de assaltos e tiroteios, foi facilmente evitada seguindo a Avenida Brasil. Entrámos na cidade melhor do que entraríamos na segunda circular, garanto-vos! Deu até para desconfiar...
Depois, foi só seguir a voz da nossa amiga do gps para darmos à primeira com o Copacabana Mar Hotel. Como a maioria dos edifícios nesta zona, data das décadas '60/'70. Piscina na cobertura, quartos espaçosos e concièrge. As modernices como o wi-fi foram entretanto introduzidas como cortesias indispensáveis. A localização, na rua atrás do Copacabana Palace, torna a zona segura e interessante. O calçadão, que se estende por alguns quilómetros e se prolonga, depois do Arpoador, por Ipanema e Leblon, é um convite às caminhadas ou, para quem preferir, a tomar um chope ou um suco em frente à praia.

Como prometido, levei o Pedro ao botequim onde eu e a Ivone, em 2002, passámos horas divertidas, a conversar com as pessoas. E aonde, numa outra tarde, levámos o Zé a um pagode de domingo, quando se junta a vizinhança, os passantes, os turistas e os habitués - entre eles o grande jogador da selecção brasileira, Júnior, a quem eu, sem querer, reguei os pés de cerveja, tudo para tirar uma fotografia! :-) As cenas que a gente faz!

À volta, pela Rua de Nossa Senhora de Copacabana, entrámos num sebo (= alfarrabista) onde encontrei um livro de poesia para o Franco (amigo, o título é a tua cara!) e onde descobri um outro muito útil, descritivo da história das ruas do Rio. O Henrique sentou-se a um canto, a folhear os gibis (= bd), e acabou por comprar um do Capitão América chamado "O mundo é das mulheres"...

E a caminho do Rio foram cumpridos os primeiros 1000 quilómetros de viagem...

17 março 2009

Paraty & Angra dos Reis

Deixámos o Estado de São Paulo e entrámos no do Rio. A diferença na condição das estradas é notório. Merecem aqui registo os trabalhos de manutenção constantes que vimos ao longo das estradas do Estado de São Paulo. Foram muitos os trabalhadores (armados de utensílios, entre eles catanas!), que vimos ao longo de centenas de quilómetros, a limpar as bermas, a arranjar o piso, a colocar sinais. E principalmente a combater a Mata Atlântica que invade as estradas. Passámos por zonas com autênticas paredes verticais de vegetação, contornámos centenas de curvas da serra, e tentámos olhar mais para a direita do que para a esquerda, porque, infelizmente, o urbanismo é um conceito reiteradamente ignorado nas cidades brasileiras. Vilarejos ou mesmo cidades maiores, que se vêem ao longo das estradas principais, crescem desordenadas e feias. Muitas dessas casas são apenas em tijolo, com a indispensável parabólica a fazer-lhe sombra. Ruas sem esgotos, onde as crianças brincam com galos e cães, sem passeios e sem alfalto. Como pano de fundo, o verde da Mata.

Na verdade, gostaríamos de ter visitado mais praias de São Paulo, porque não faltam enseadas convidativas. Por outro lado, apesar de o tempo estar quente e abafado, o céu está encoberto e parece que nos empurra para outras marés. Ao passar em frente à Ilha Bela, um dos destinos que tínhamos pensado visitar, não sentimos muita pena por não fazer a travessia até lá. Esperemos que, para a próxima, a cor do céu não se confunda com a do mar...
Além disso, quisemos honrar o combinado e, dia 11, seguimos para Paraty para encontrar a Ivone, a Sandra Fontes, o Miguel e a Sandra Farrajota. Sem marcar hora nem lugar certos, lá nos encontrámos numa das ruas empedradas do centro histórico! Como era de esperar, a boa disposição reinou durante esses dias...

Paraty é linda, com uma arquitectura cuidada e muita influência maçónica, pelo menos na iconografia usada na decoração das fachadas. Com a "engenharia portuguesa" que ainda hoje caracteriza as suas ruas (pedras redondas encostadas umas às outras, chamadas "pé de moleque"), sempre que a maré sobe, as ruas enchem de água; quando desce, lava as ruas. O pior são os trambolhões a que se está sujeito, porque não é fácil caminhar sobre tão irregular pavimento. E com o medo de pôr um pé em falso, quase não se tiram os olhos das pedras para contemplar o resto.

Pelo que me contaram (sim, porque fiquei a trabalhar!), as trilhas e as piscinas da praia da Trindade merecem uma visita prolongada. No dia seguinte, o passeio de barco, a contornar as ilhas e as praias de Paraty também é um programa indispensável. Alugámos um barco pequeno (onde o Henrique começou o seu estágio de marinheiro, ao leme), e fomos parando onde nos apeteceu, para comer e dar um mergulho. Apesar de a maré baixa nos ter preparado um "quase-encalhanço" à saída do porto, do desarranjo intestinal de um dos elementos :-) e da carga de água à chegada, correu tudo super bem! Ao fim da tarde, a chuva empurrou-nos para uma cachaçaria típica, onde o Rodrigo nos aturou algumas horas. Nada como estes momentos espontâneos!
Paulinho, fartei-me de me lembrar de ti e da nossa visita a Paraty!

Com o regresso dos "turistas" a Portugal, arrancámos em direcção a Angra dos Reis. A cidade, como tive oportunidade de ver da outra vez, é uma desilusão pura! As ilhas, depois de um outro passeio de escuna, ontem, são realmente mais atraentes, embora o dia não estivesse do mais ensolarado. Segundo a conversa para impressionar turista, muitas ilhas pertencem a figuras como Ronaldo, Ivo Pitangui, o presidente da Fifa, do Flamengo, Airton Sena, etc. Verdade ou mentira, pelo menos, estão bem conservadas.
Instalámo-nos na pousada Mar de Angra, a seguir ao Colégio Naval, em frente ao mar da praia grande. Aqui estaremos até 4ª, dia em que o Rio de Janeiro nos espera.

10 março 2009

Litoral

E depois de um fim-de-semana super bem passado em casa do Beto e da Sandra, com direito a churrasco gaúcho, cervejinhas geladas e bom papo, deixámos São Paulo para trás. Agora, sim, começou o passeio.
Em pouco mais de uma hora descemos em direcção ao litoral (Santos) por duas estradas absolutamente deslumbrantes. A primeira, a Imigrantes, é uma autêntica auto-estrada, com pedágio, piso excelente, ladeada por planícies verdejantes e braços de água da Represa Billings.

Na segunda, a Anchieta, a cada curva da serra entreabre-se a Baixada Santista, por entre a luxuriante Mata Atlântica. O engenho humano teve aqui, não duvido, um momento de inspiração. Túneis, viadutos e pontes surgem engolidos pela folhagem da encosta, sem se perceber onde começam e onde acabam. A cotas de centenas de metros de diferença, a dezenas de quilómetros de distância, camiões sobem do porto ou descem até ele, por faixas de sentidos únicos, que mal se cruzam desniveladas e nunca se encostam nas inversas. Lá em baixo, o Atlântico espera nas praias que nos acompanham depois, pela Rio-Santos. Também em óptimo estado de conservação, esta é uma estrada que sobe até ao Rio protegida à esquerda pelas Serras do Quilombo e do Mar. A Mata Atlântica continua - e continuará do nosso lado até daqui a uns bons dois mil quilómetros -, com o seu cheiro a terra húmida, verde negra e contrastante com o mar. Quando a deixam, só pára nas areias das praias.

E com o gps que o Beto fez questão de nos oferecer (mais uma vez, 1000 x obrigados!), chegámos até Juquehy, pequena cidade litoral, com praias lindas e pousadas cuidadas. A época é baixa, a confusão é quase nula. Com o wi-fi da pousada cá recomecei a trabalhar, ou não me vá eu esquecer de como isso se faz! Na semana que tirei de férias, os urubus dos meus clientes não se acanharam de me mandar mais uma boa dezena de trabalhos. Venga, são vocês mesmo que escolhemos para patrocinar o passeio!